P(ré)S: Post exagerado e sujeito a edição.
Março 21, 2008
Em um quarto escuro estou só. O sol cortado em fatias caminha timidamente através das persianas da minha janela. A luz amarelada do entardecer revela suaves listras do meu corpo nu. Aqui, na minha cela particular, pareço estar vestindo um uniforme carcerário.
Sinto os segundos acariciarem lentamente minha pele enquanto que, ao fundo, uma vitrola reproduz pobremente aquele disco de músicas antigas há muito tempo esquecidas. A agulha salta diversas vezes, torna a combinação das palavras sem sentido. Eu poderia me levantar. Poderia reconstruir o silêncio, mas este tem permanecido tempo demais em mim. Preciso de uma voz – que me diga algo, que não me diga nada; mas que ao menos me diga. Seja lá o que for só não me deixe sufocar no vazio de mim mesma.
E com a cabeça deitada em meu próprio ombro, derramo meus pensamentos. Eles vão me abandonando como um líquido em vapor e espalham-se pelo chão frio. Sei que se adormecer você virá roubá-los de mim. Irá transformá-los em sonhos fartados de ilusão. Então, desesperadamente, tento enganar a noite, corro dela com meus pés descalços ainda que sem sair da minha eterna cela individual. Atrás de mim ouço seus passos ritmados. Andas calmamente, certo de que me alcançará mais uma vez. Me persegues pisando firme no chão repleto de pensamentos meus.
Não encontro uma maneira de curar-me. Viro-me, olho pro travesseiro vazio – ainda posso sentir teu cheiro empreguinado em mim. Onde me tocastes meus pêlos se arrepiam com a lembrança. Enquanto por aí andas, eu aqui continuo e me alimentar do sabor do teu beijo.
Inconscientemente minha boca se abre, entrecorta o som da vitrola rasgada e diz toda verdade que tenho deixado presa na minúscula gaveta do criado-mudo. “Volta. Volta e não me deixe mais”.
Um homenzinho em mim e o homenzinho sou eu.
Março 13, 2008
O telefone toca – sei que não é pra mim. Há meses que aquele som quebra minha linha de pensamento e não me chama. Se chama, não me importo. Varia entre vozes femininas e masculinas, mas todas com perfeita dicção, me cuspindo propostas. Elas prometem me dar vantagens; nenhuma me satisfaz.
Com o tempo correndo pela minha janela vejo apenas o sol se pôr. No dia seguinte, como previsto, ele renascerá. É o que se espera. Dizem que a melancolia faz bem à poesia, mas a minha permanece estagnada.
Pois deram um pause nos meus olhos e o que ficou congelado na tela retangular foi uma cena em preto-e-branco. Nela há um homem baixo de ombros covardes. Ele veste um casaco, mas não se pode dizer de que cor realmente é. Eu o vejo em cinza, como tudo mais – tons de cinza. Com os olhos semi-serrados ele tenta desviar de uma poça. Sabemos que assim que os segundos voltarem a rodar ele não conseguirá evitá-la. Está bem abaixo de seu pé, aguardando o próximo movimento. Uma chuva forte cai sobre seu chapéu, umedece seus pensamentos. Não se ouve o som. É tudo silêncio nos meus olhos. Mas os discos dos meus ouvidos estão arranhados num verso. A voz é rouca, demorada. Me dá a impressão de zumbido no fim de cada palavra. Masculina – nessa não há boa dicção, não há vantagens; a única coisa que ouço é a realidade. Ele me acalma, me atrai. Me conta um segredo, canta baixo com sua voz quase sumida. “Time has told me not to ask for more”. Eu não peço. Só o que quero é o agora. Ainda assim meus dedos são a cintura de uma ampulheta, o que passa por eles não volta. São grãos, minúsculos, momentos. Essa ampulheta eu não posso virar. O que passou,
São grãos passados. O tempo continua passando pela minha janela. É como um trem: em cada vagão há uma imagem, há rostos, há sorrisos, há lágrimas. Os vagões passam, as imagens passam, os rostos envelhecem, os sorrisos tornam-se meros borrões, as lágrimas secam, molham, secam.
Molham. E mais uma vez o que há à minha frente é uma imagem em preto-e-branco, o homenzinho permanece com seus ombros covardes, com seu chapéu molhado. Vê-lo assim me faz sentir frio. Logo percebo que ele sou eu e nós estamos debaixo da chuva. Apenas esperamos por alguém que vá apertar um botão qualquer, esperamos sabendo que no momento seguinte nossos pés estarão molhados. Não há nada que possamos fazer, não estamos pedindo por mais tempo. Não queremos mais tempo.
Les Amants.
Março 2, 2008
Sem saber como foi parar ali, ela levanta o rosto e olha para o céu. Nada para se ver. Está tudo vazio. Seu passado a compromete, com suas garras firmes a segura; não a permite esquecer. Não importa o que acontecerá daqui para frente, ele só a quer por alguns minutos. Ela sabe. Sem ter nada a dizer a beija fazendo com que ela se deixe levar por cada toque. Mesmo tendo um dicionário inteiro de palavras a serem ditas ela se cala. Ele não a ouve. Mesmo desejando tê-lo, nada faz. Não adianta. Não passará daquilo – existe um abismo entre eles, não há acordo. Seus objetivos competem, suas visões estão embaçadas. Nem mesmo em um momento como este eles se olham. Ele não a enxerga. Ela o abraça forte. Ele pensa qual o melhor momento para abandoná-la, conta os segundos.
A diversão acabou. O amor pode ser descartado.
Menos que um grão de areia.
Janeiro 2, 2008
“O que é vida pra ti, afinal, eu teria rido da pergunta, mas o clima e a ocasião pediam uma resposta, e então pedi a ela que imaginasse quando o homem ainda era um macaco, ela disse ta, agora imagina antes disso, os animais cada vez mais rudimentares, a evolução ao avesso, os répteis, anfíbios, peixes, aqueles carangueijinhos pequenos que existem até hoje, moluscos, ta, imaginei, agora imagina os seres microscópicos, protozoários, bichinhos unicelulares que se dividem no meio, ta agora imagina o caldo primordial, quando o planeta ainda era uma bola de enxofre fervente, imagina o exato momento em que, pela primeira vez, motivadas pela alta pressão e temperatura, algumas substâncias químicas inorgânicas se combinaram formando um aminoácido que, por razoes aleatórias, era capaz de se replicar, ta, agora volta mais ainda, imagina as partículas que formam essas substâncias químicas, os átomos, os prótons e os elétrons e nêutrons e a grande quantidade de vazio de que eles são formados, ta, agora imagina os quarks, aquela coisa ainda menor que forma todo o resto, té oquei, pode parar aí no quark, agora mentaliza bem ele e vai se afastando, pensa no átomo, nos aminoácidos, nos protozoários, nas amebas, nos cachorros, nos seres humanos, no planeta Terra, sistema solar, na nossa galáxia, nos milhões de outras galáxias, vai se afastando cada vez mais, até que as próprias galáxias sejam partículas insignificantes dançando do meio do nada, e agora te afasta mais um pouco. Imaginou? Pois acho que isso dá uma boa idéia do que é a vida.”
Trecho de “Até o Dia em que o Cão Morreu” – Daniel Galera.
Preste atenção, querida, de cada amor tu herdarás só o cinismo.
Dezembro 23, 2007
se a você pertencem meus segredos, se é você quem carrega meus pesares, se caminha sobre mim de olhos fechados, é porque sou/fui sua. te prometi tudo o que tinha, era pouco. não me sobrou um fragmento sequer. ninguém está à busca de sobras e sobras é o que sou. insistindo em procurar algo que ao menos se parecesse com amor, me perdi – encontrei mais ilusão. ao teu lado eu era inocente, acreditava até mesmo em florestas encantadas se sobre florestas encantadas tu me falasse. cavei fundo entre objetos desconhecidos; pertences que não me pertenciam. nada ali era meu, a mim parte nenhuma me cabia. mesmo assim roubei um pouco. roubei por desespero, por querer acreditar. fui sincera novamente, mais uma vez destranquei o portão que guarda minha’lma – vazio. caso tenha sido o vazio que encontraste é porque foi o vazio que me restou. não cabe a você me julgar. meus motivos são obscuros; minhas palavras, confusas. nada aqui faz sentido, são meus pedaços de quebra-cabeça espalhados pelo chão, não há quem consiga me refazer. não há quem me decifre. só tu conheces meu segredo e com ele foste pra longe – me deixaste incompleta.
Feliz segundo-novo.
Dezembro 22, 2007
Fim-de-ano é sempre a mesma coisa; pessoas se procuram com o intuito de compensar o tempo perdido, incorporam o “espírito natalino”, compram roupas novas… Sorriem sem motivo.
O sentimento de mais um ano que passou dói fundo no peito, por isso tentamos preencher o vazio com futilidades – calçinhas coloridas e sapatos prateados. Nosso tempo passa a cada segundo; mas precisamos de fogos-de-artifício para notá-lo sumindo. E então, quando as luzes se apagam e a vozes se calam…
Já foi.
Apague-me.
Dezembro 14, 2007
Por que você faz isso? Não precisa continuar indo atrás se não quer mais nada. Eu não te devo nada, você não me deve nada. Nós não precisamos nos explicar, não existem palavras que traduzam o que sentimos. É o orgulho que me faz te olhar nos olhos e virar as costas. Que me faz sentir falta do seu jeito único de me beijar e sumir. Não posso te dizer, não posso te contar. Quando a ciência explica tudo, eu digo que não são meus hormônios que me levam a você. Também não sei o que é. E muito menos saberia dizer o que te traz até mim. Me faz de caça e se aproxima aos poucos. Parecendo não ver chance apenas desiste. E eu não posso te admitir o quanto quero. Tenho que me afastar, fugir com tudo que me deste. Pois se eu não o fazer agora você me obrigará a fazê-lo depois. Seu orgulho idiota me afugentará. Mas se eu não quero fugir de novo, não me force a ficar.
Somos covardes. Apenas deixe-me ir. Esqueça.