Um trecho a mais.

Abril 30, 2009

Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem.

Tenho algo em comum com a Lya Luft. Quem diria?

Olhe bem pra mim. Eu não sei o que te dizer, meus olhos estão completamente embaçados pelo teu orgulho. A cada passo que dou na tua direção, um abismo se forma entre meus dedos. As palavras se confrontam dentro da minha garganta, o dicionário não contém o que preciso te mostrar. O meu cerne se contorce. E mais uma vez, te encarando frente-a-frente, eu desisto. O que há em mim não é amor; é apenas uma seqüência estranha e desordenada de pensamentos que não deveriam estar aqui.

“O que é vida pra ti, afinal, eu teria rido da pergunta, mas o clima e a ocasião pediam uma resposta, e então pedi a ela que imaginasse quando o homem ainda era um macaco, ela disse ta, agora imagina antes disso, os animais cada vez mais rudimentares, a evolução ao avesso, os répteis, anfíbios, peixes, aqueles carangueijinhos pequenos que existem até hoje, moluscos, ta, imaginei, agora imagina os seres microscópicos, protozoários, bichinhos unicelulares que se dividem no meio, ta agora imagina o caldo primordial, quando o planeta ainda era uma bola de enxofre fervente, imagina o exato momento em que, pela primeira vez, motivadas pela alta pressão e temperatura, algumas substâncias químicas inorgânicas se combinaram formando um aminoácido que, por razoes aleatórias, era capaz de se replicar, ta, agora volta mais ainda, imagina as partículas que formam essas substâncias químicas, os átomos, os prótons e os elétrons e nêutrons e a grande quantidade de vazio de que eles são formados, ta, agora imagina os quarks, aquela coisa ainda menor que forma todo o resto, té oquei, pode parar aí no quark, agora mentaliza bem ele e vai se afastando, pensa no átomo, nos aminoácidos, nos protozoários, nas amebas, nos cachorros, nos seres humanos, no planeta Terra, sistema solar, na nossa galáxia, nos milhões de outras galáxias, vai se afastando cada vez mais, até que as próprias galáxias sejam partículas insignificantes dançando do meio do nada, e agora te afasta mais um pouco. Imaginou? Pois acho que isso dá uma boa idéia do que é a vida.”

Trecho de “Até o Dia em que o Cão Morreu” – Daniel Galera.