Colorido.
Maio 26, 2009
Existe um sentimento dentro de mim que é de um forte azul borrado com amarelo. Tem um efeito sedativo que me deixa com sono da vida que levo, me dá preguiça de tê-la assim. E enquanto penso nesse sentimento esquisito e sonolento, deixo-me entregar completamente. Há anos que entrego a ele a complexidade do meu ser sem mistérios. No zênite de meus tempos já recordo o quanto perdi, faço as contas e me desespero. Existe aqui um anseio que é verde e tem a força de um assombro. Com uma concentração sem igual toma conta de minhas veias e explode em gritos fechados e olhares silenciosos, me toma de todo e me diz o que fazer. É que os dias estão passando e já nem sei mais como manuseá-los, me cria fadiga levitar sobre os relógios e assistir aos ponteiros girarem. Eles continuam incansáveis; e se param, nada pára. Porque os segundos não são apenas uma ilusão, jogam-se de mãos dadas à gravidade por sobre nós. Implacáveis e furiosos. Só que no meu cerne existe um sentimento vermelho, vívido e sem temor. Este que vai sendo injetado no meu corpo, este que é o antídoto para todas as outras cores. É o efeito que tu me faz.
Lições.
Setembro 16, 2008
Tu me tens em teus braços até mesmo quando não me tens presente. Me partes o coração e me rouba-o por inteiro, me levas contigo e não me permites resistência. Tens nesse sorriso segredos que permanecem encobertos, guardas contigo tudo que preciso descobrir, me tornas curiosa de um jeito inevitável. Vai se revelando de maneiras únicas e, ao tirar a armadura que exibes orgulhosamente a todos, me fazes questionar minha ingenuidade – sei que somente a mim tu te mostras assim. Sei que entre nós disfarces não existem.
No primeiro beijo mostrou-se decidido, nos seguintes comportou-se como o absurdo. E já nem sei como dizer, depois de todos os jeitos que já disse temo até mesmo parecer repetitiva, ficar sem graça e sem a possibilidade de mostrar tudo o que passei a ser e a sentir por causa de um único fator surpresa na minha vida. E mesmo que pudesse, não sei se saberia descrever o efeito que tu me causas. Pois de todo vocábulo que conheço até mesmo “amor” tornou-se uma palavra obsoleta, é pouco. É algo que só pode ser descrito como uma grande enxurrada de sentimentos; algo que me faz chorar, me faz sorrir, desejar a morte ao mesmo tempo em que me faz amar a vida. É uma conduta de fato pecaminosa, mas cheia de tudo que há de mais puro e verdadeiro.
E nesse caminho em que não há mais volta, às vezes eu simplesmente me desespero, choro sem conseguir aceitar que algum dia tu poderias me magoar. Eu sei, são meras suposições sem respaldo no real. Mas entenda, é nessa condição na qual me encontro, totalmente sem saída, totalmente perdida nesse estrito espaço que ainda permite aos outros diferenciarem o teu do que é meu. Porque sim, teu amor me desespera. E eu que achava que já sabia do que se tratava esse sentimento versado por inúmeros poetas descubro o quanto leiga sempre fui. E aos poucos tu vais me ensinando, na mesma medida em que te faço aprender. Somos dois que de nada sabem, que de muito precisam saber e que não se cansam. Mas seja em silêncio ou na gritaria, no sereno abraço ou no devasso, em você ou em mim – eu adoro nossas lições de amor.
Atenção, apaixonados, amantes e afins.
Abril 22, 2008
A vocês que são os responsáveis
Por me fazerem acreditar
Não se façam de desentendidos
Não estar apaixonado é um constante tormento. Vocês, amantes, acham mesmo que pensar na Tal Pessoa dia e noite sem parar é incômodo? Experimentem não pensar em ninguém; ou, quando pensar, ela vir automaticamente acompanhada de outra – que não seja você, claro, ou seria estar apaixonado. Se bem que pensar em alguém com outra também seria estar apaixonado. É, seria. Então a questão aqui é outra. Estar apaixonado e não ser correspondido é um constante tormento. Não que seja o meu caso, oquei? Eu não sofro dessa doença, ao menos não ultimamente. Freud também poderia explicar isso como um mecanismo de defesa do ego – negação. Mas Freud não sabia de nada, meu ego não está se defendendo. Meu ego está dizendo a verdade – ele é sincero. O que eu queria dizer, na verdade, é que me cansa ver filmes românticos, ler poemas românticos, contos românticos, tudo romântico. Me cansa. Meus melhores amigos, românticos, idem. E não, isso não vem de alguém que só porque está só há algum tempo adquiriu aversão ao romantismo. Ou vem, não sei. Eu acredito no amor, acredito sim. Só ainda não o conheci nesse sentido em que chamam de “imensurável”. Uma vez até pensei ter conhecido. E às vezes acho que foi isso mesmo, “imensurável”. Mas a fita métrica acabou se revelando longa demais e o imensurável foi medido – medido e assim se tornou finito. E como todas as coisas finitas, acabou. É aí que eu olho para meus amigos, tão profundamente apaixonados. Olham-se como pela primeira vez, abraçam-se, trocam palavras de amor. Acho tudo muito bonito e às vezes sinto um pouco de inveja. Só que também lembro que já tive isso, tive mesmo. Já abracei alguém por horas sem me importar com mais nada, apenas sugando aquele cheiro de colônia até em embriagar. Mas acabou. Penso se com eles tudo irá acabar também. E, em silêncio, torço para que não. Não por que tentar sair com os dois será estranho ou por que teoricamente terei de “escolher um lado”. Não é isso, nenhum desses pensamentos egoístas. É outro pensamento egoísta: eles me fazem, de alguma forma, acreditar novamente na sinceridade entre duas pessoas que assim se vêem uma na outra e se encontram. Não queria dizer “que se amam” pra não ficar pegajoso, mas é isso mesmo. Pessoas que se amam, essa breguisse toda. Gosto de pensar que é verdadeiro e me aproveito um pouco desse amor que eles jogam de um lado pro outro; tomando um pouco pra mim, guardando no bolso e coletando provas para me convencerem. Me convencer mais uma vez de que isso existe, mesmo sendo abstrato, invisível, incolor; mas extremamente “dolor”. Ainda assim, continua sendo uma pena que os poemas que eu leio sejam para ninguém, as lágrimas que faço rolar sejam para ninguém. É, não estar apaixonado é um constante tormento. Um constante desperdício.
Assinado,
Eu, brega e escrevendo.
Um homenzinho em mim e o homenzinho sou eu.
Março 13, 2008
O telefone toca – sei que não é pra mim. Há meses que aquele som quebra minha linha de pensamento e não me chama. Se chama, não me importo. Varia entre vozes femininas e masculinas, mas todas com perfeita dicção, me cuspindo propostas. Elas prometem me dar vantagens; nenhuma me satisfaz.
Com o tempo correndo pela minha janela vejo apenas o sol se pôr. No dia seguinte, como previsto, ele renascerá. É o que se espera. Dizem que a melancolia faz bem à poesia, mas a minha permanece estagnada.
Pois deram um pause nos meus olhos e o que ficou congelado na tela retangular foi uma cena em preto-e-branco. Nela há um homem baixo de ombros covardes. Ele veste um casaco, mas não se pode dizer de que cor realmente é. Eu o vejo em cinza, como tudo mais – tons de cinza. Com os olhos semi-serrados ele tenta desviar de uma poça. Sabemos que assim que os segundos voltarem a rodar ele não conseguirá evitá-la. Está bem abaixo de seu pé, aguardando o próximo movimento. Uma chuva forte cai sobre seu chapéu, umedece seus pensamentos. Não se ouve o som. É tudo silêncio nos meus olhos. Mas os discos dos meus ouvidos estão arranhados num verso. A voz é rouca, demorada. Me dá a impressão de zumbido no fim de cada palavra. Masculina – nessa não há boa dicção, não há vantagens; a única coisa que ouço é a realidade. Ele me acalma, me atrai. Me conta um segredo, canta baixo com sua voz quase sumida. “Time has told me not to ask for more”. Eu não peço. Só o que quero é o agora. Ainda assim meus dedos são a cintura de uma ampulheta, o que passa por eles não volta. São grãos, minúsculos, momentos. Essa ampulheta eu não posso virar. O que passou,
São grãos passados. O tempo continua passando pela minha janela. É como um trem: em cada vagão há uma imagem, há rostos, há sorrisos, há lágrimas. Os vagões passam, as imagens passam, os rostos envelhecem, os sorrisos tornam-se meros borrões, as lágrimas secam, molham, secam.
Molham. E mais uma vez o que há à minha frente é uma imagem em preto-e-branco, o homenzinho permanece com seus ombros covardes, com seu chapéu molhado. Vê-lo assim me faz sentir frio. Logo percebo que ele sou eu e nós estamos debaixo da chuva. Apenas esperamos por alguém que vá apertar um botão qualquer, esperamos sabendo que no momento seguinte nossos pés estarão molhados. Não há nada que possamos fazer, não estamos pedindo por mais tempo. Não queremos mais tempo.
Les Amants.
Março 2, 2008
Sem saber como foi parar ali, ela levanta o rosto e olha para o céu. Nada para se ver. Está tudo vazio. Seu passado a compromete, com suas garras firmes a segura; não a permite esquecer. Não importa o que acontecerá daqui para frente, ele só a quer por alguns minutos. Ela sabe. Sem ter nada a dizer a beija fazendo com que ela se deixe levar por cada toque. Mesmo tendo um dicionário inteiro de palavras a serem ditas ela se cala. Ele não a ouve. Mesmo desejando tê-lo, nada faz. Não adianta. Não passará daquilo – existe um abismo entre eles, não há acordo. Seus objetivos competem, suas visões estão embaçadas. Nem mesmo em um momento como este eles se olham. Ele não a enxerga. Ela o abraça forte. Ele pensa qual o melhor momento para abandoná-la, conta os segundos.
A diversão acabou. O amor pode ser descartado.
Preste atenção, querida, de cada amor tu herdarás só o cinismo.
Dezembro 23, 2007
se a você pertencem meus segredos, se é você quem carrega meus pesares, se caminha sobre mim de olhos fechados, é porque sou/fui sua. te prometi tudo o que tinha, era pouco. não me sobrou um fragmento sequer. ninguém está à busca de sobras e sobras é o que sou. insistindo em procurar algo que ao menos se parecesse com amor, me perdi – encontrei mais ilusão. ao teu lado eu era inocente, acreditava até mesmo em florestas encantadas se sobre florestas encantadas tu me falasse. cavei fundo entre objetos desconhecidos; pertences que não me pertenciam. nada ali era meu, a mim parte nenhuma me cabia. mesmo assim roubei um pouco. roubei por desespero, por querer acreditar. fui sincera novamente, mais uma vez destranquei o portão que guarda minha’lma – vazio. caso tenha sido o vazio que encontraste é porque foi o vazio que me restou. não cabe a você me julgar. meus motivos são obscuros; minhas palavras, confusas. nada aqui faz sentido, são meus pedaços de quebra-cabeça espalhados pelo chão, não há quem consiga me refazer. não há quem me decifre. só tu conheces meu segredo e com ele foste pra longe – me deixaste incompleta.
Feliz segundo-novo.
Dezembro 22, 2007
Fim-de-ano é sempre a mesma coisa; pessoas se procuram com o intuito de compensar o tempo perdido, incorporam o “espírito natalino”, compram roupas novas… Sorriem sem motivo.
O sentimento de mais um ano que passou dói fundo no peito, por isso tentamos preencher o vazio com futilidades – calçinhas coloridas e sapatos prateados. Nosso tempo passa a cada segundo; mas precisamos de fogos-de-artifício para notá-lo sumindo. E então, quando as luzes se apagam e a vozes se calam…
Já foi.
Apague-me.
Dezembro 14, 2007
Por que você faz isso? Não precisa continuar indo atrás se não quer mais nada. Eu não te devo nada, você não me deve nada. Nós não precisamos nos explicar, não existem palavras que traduzam o que sentimos. É o orgulho que me faz te olhar nos olhos e virar as costas. Que me faz sentir falta do seu jeito único de me beijar e sumir. Não posso te dizer, não posso te contar. Quando a ciência explica tudo, eu digo que não são meus hormônios que me levam a você. Também não sei o que é. E muito menos saberia dizer o que te traz até mim. Me faz de caça e se aproxima aos poucos. Parecendo não ver chance apenas desiste. E eu não posso te admitir o quanto quero. Tenho que me afastar, fugir com tudo que me deste. Pois se eu não o fazer agora você me obrigará a fazê-lo depois. Seu orgulho idiota me afugentará. Mas se eu não quero fugir de novo, não me force a ficar.
Somos covardes. Apenas deixe-me ir. Esqueça.