Sem título.

Julho 30, 2008

Nunca estive tão confusa. Tanto que não consigo nem mesmo discernir por onde tudo começou ou até mesmo como. E por mais que eu tente, as palavras tropeçam e caem umas sobre as outras, acabam com toda semântica possível. Em um movimento distorcido elas unem-se contra mim, recusam-se a me dar a ordem desejada. Tomam o pouco de sentido que conquisto e fogem. Não olham pra trás, não me deixam pistas – pequenas criminosas fugitivas. São meus pensamentos realizando um motim, decididos a me complicar, não falo nada. Meus lábios não se movem e você espera, espera.

Do outro lado da sala, está você, enterrado no sofá. Com o olhar impassível, as mãos entrelaçada entre os joelhos e lábios semi-cerrados, me olha. Analisa meus movimentos cuidadosamente, quadro-a-quadro. Sinto meus olhar nervoso, desvia-se do seu constantemente. Apenas os postes da rua vazia iluminam preguiçosamente a sala, tão descuidados que só posso discernir suas linhas no escuro. Um carro passa lá fora, a luz nos invade. E é só. Por um momento, iluminados por um flash, nossos olhares se encontraram; agora já andam perdidos.

Em um ato de coragem retiro de algum lugar localizado bem abaixo da minha nuca uma última carga de energia que me resta. “Pare de me olhar assim, não estou aqui sentada na sua frente porque lhe devo desculpas ou explicações.” Você não olha, desvia – finge que não se importa, de qualquer forma. É essa a verdade, realmente a nua e sem pêlos verdade. Ainda assim sinto como se devesse um pouco de cada parte de mim. Desembaraçado e agindo como quem não ouve, você se ajeita para o lado direito, põe a mão no bolso, pega um cigarro e vai construindo lentamente uma barreira leve como o próprio ar entre nós. A fumaça disforme o esconde, vejo-o distorcido do outro lado. Não muda muita coisa, você sempre esteve escondido e confuso para mim, assim. Agora seus olhos cínicos encontraram outro objeto de interesse que não eu. É como se todo o resto se diluísse e tudo o que você enxerga é a parede encardida atrás de mim. Um pedaço do meu apartamento que, como todos os outros, permanece intocado. Nunca dei muita importância para este lugar mesmo, sempre soube que mais cedo ou mais tarde iria embora. É o que eu faço, sempre vou embora.

Vai dizer que você nunca se perguntou por que eu sempre disse que queria ter um cachorro, mas nunca procurei por um? É simples; cachorros são piores que filhos, bebês que não crescem, nunca se tornam independentes. Eu não posso, nunca pude me envolver com alguém dessa forma. Foi por isso que em meio a tantos te escolhi, encostado no canto, sempre com os olhos distantes. Conosco tudo poderia acontecer e você estaria ali, alheio, fumando o que parecia ser o último cigarro, o último trago. Independente, tudo o que precisei; igual a mim. Com você não haveria lágrimas, não haveria despedidas grudentas, você jamais tentaria me impedir. Nossas peles não derreteriam, não iriam misturar-se uma à outra. Seria fácil, mais fácil que nunca, mais fácil do que foi com qualquer outro. Foi o que eu pensei assim que o vi, premeditei meu próximo passo, e o próximo. Soube desde o começo como tudo aconteceria, estava preparada.

Mas acabou sendo como numa chuva de verão que nos surpreende. Estamos andando pelo meio de uma avenida movimentada quando sentimos aqueles primeiros pingos, mínimos. Achamos que é apenas impressão. Lá em cima, o sol brilha. Está tudo bem. No momento seguinte ela dimana. Sem aviso, sem sinal. Nós fugimos, disputamos um pouco de teto, um pouco de proteção entre tantos outros desavisados. Só para perceber que é tarde demais, nossos pés já estão molhados, as palmas de nossas mãos vão se enrugando. Não existe outra opção senão nos entregarmos – deixar que a chuva nos leve, nos molhe.

Agora aqui, estando de frente para você. Penso. Tento me lembrar do que éramos, lembrar exatamente o que nos trouxe até aqui. Nossa história – se é assim que posso chamar esse período de tempo em que estivemos assim, entrelaçados – não é longa, não é velha. Ela ainda se comporta como uma criança mimada que apesar de não saber o que realmente quer, estica os braços e agarra tudo à sua volta. Talvez sejamos ainda jovens demais para entender o que está acontecendo, jovens demais para nos entendermos, para fazer aquilo que vai além de nós dois. Entende? Amar.

Não sei se quero isso ainda, não sei se quero me entregar a esse sentimento tão sério. Antes que eu consiga ver, talvez já tenha até mesmo acontecido. “Mudanças acontecem constantemente conosco, mas são poucas aquelas que todos ao nosso redor podem notar. Não falo de mudar a cor do cabelo, nem de fazer uma cirurgia radical. É algo muito mais sutil, que acompanha um movimento de gradativa exposição e acaba por nos deixar diferentes aos olhos de todos. Falo de coisas que vão de dentro pra fora, entende?” As palavras vão acompanhadas de um movimento no qual abro minhas mãos e finjo jogar algo, de mim para você.

Não posso ficar mais aqui, já passei tempo demais. As pessoas começam a saber meu nome, começam a me enxergar e eu temo que isso vá adiante. Elas sabem das minhas manias, dos meus trejeitos. Sabem quando minto ou quando digo a verdade. Sei que mais cedo ou mais tarde todas me julgarão. Eu não sou isso, não sou assim. Não quero me defender, que pensem o que quiserem desde que eu esteja longe o suficiente para não ouvi-las falar.

“Agora, me ouça. Há quanto tempo estamos juntos mesmo? Ah, cinco meses. Provavelmente um recorde para a minha ficha. Mas há algo que preciso te dizer. Vou deixá-lo.”

Tudo que vejo no local onde você deveria estar é um ponto de luz tornar-se mais forte, mais alaranjado. “Está bem então”, você diz. Parece que de tudo que digo você só ouve fragmentos daquilo que menos importa, das mentiras que te conto para que você me peça para ficar, para que você se esforce e invente motivos que me façam ficar. Se talvez prestasse atenção , perceberia que entre uma declaração e outra tudo o que digo é que mudei.

Mas não fui somente eu de maneira isolada; minhas crenças também mudaram e agora sempre que penso em um plano futuro eu penso em você e em como qualquer coisa que eu faço pode vir a te atingir. E você? Mudou? Não, acho que não. Me enxergo inocente, descubro aquilo que não queria descobrir jamais; está claro que você não me dará motivos. Se limita a perguntar onde estou indo.

“Não sei se devo dizer, você por acaso iria à minha procura? Se eu disser para onde irei corro o risco de esperar que você vá atrás de mim, talvez eu até me iluda. Não vale à pena, não é mesmo?”

“É, certo. Só não entendo porque iria se iludir, tem motivos para pensar em mim?”

Penso em como tudo isso é estranho. Eu era uma ilha e agora? Acabo por atestar tudo aquilo que John Donne disse e viro um continente? Algo maior, quem sabe. Ontem eu pensava em ir embora, desejava fugir e talvez não voltar mais, sempre quis viver viajando, conhecendo lugares, tendo uma vida de fato bandida, sem precisar ligar para ninguém no fim do dia. E isso, isso também mudou. A culpa por tudo é sua, mas o réu sequer sabe que está sendo acusado. E por um lado, de tanto te amar, eu te odeio. Enquanto todos me vêem de forma diferente, eu já não me vejo tão bem – às vezes o espelho embaça e quando volta ao normal outra pessoa que nunca vi antes me encara nos olhos, sorri sempre que pensa no seu sorriso. A vida me ensinou que devo ser independente, especialmente quando se trata das minhas emoções. Só que estou desobedecendo à vida, não a ouço mais.

Para a sua pergunta, continuo em silêncio, seu cinismo vem para me provar e se diverte com a minha maneira de tentar me explicar. Sei que por dentro você dá gargalhada, me desafia a levantar e ir sem mais explicações. Conheço muito bem o meu passado e lembro das coisas que aconteceram comigo, que me fizeram acreditar que estava morta. Perdi a fé nas pessoas e em mim mesma, passei a enxergar o mundo em tons pastéis e o amor para mim se tornou uma grande piada, eu ria sempre que me falavam dele. Descobri então uma maneira de me proteger, encerrei-me em mim mesma e assim, isolada de todos, julguei-me feliz. Mas estava morta e sem perceber pequenos vermes se alimentavam daquilo que outrora fora um ser, vivo. Porque é só quando vemos o sol que descobrimos o quão a noite é escura. E você, não me deixe voltar à noite.

“E se eu tiver motivos para pensar em você? Isso o fará pensar em mim?”

3 Responses to “Sem título.”

  1. Biggles Says:

    Belo texto, como de costume – cinza, doído, fechado, também. E profundo – provavelmente um tanto mais do que uma mente como a minha consegue captar, rs

  2. Júlio Says:

    “Porque é só quando vemos o sol que descobrimos o quão a noite é escura. E você, não me deixe voltar à noite.”

    Caralho! Eu tô realmente fudido (o pinguinho rosa no azul-escuro, sacas?)! ^^

  3. Nathália Says:

    MUITO BOM!


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