- Ei.

- Oi?

- Ah, nada não – respondeu sabendo que ele não hesitaria em insistir por uma resposta mais específica, pois seu jeito sempre curioso não a deixava nunca passar com um pensamento incompleto ou com uma boca semi-aberta na menção de falar algo não falado.

- Pára com isso, vai. O que houve? Diz… – como o previsto ele continuou a perguntar, afastando o peito do rosto dela para olhá-la nos olhos com uma expressão de interrogação que só podia ser vista agora graças à luz da lua que vinha entrando pela janela em sua direção e dava ao seu corpo uns contornos pálidos.

Esta mesma cena, em que um casal de protagonistas se abraçam e dividem a respiração indefinidamente, vinha se repetindo depois de diversos encontros, com pequenos intervalos de tempo. Eles se viam no momento em que ela abria a porta e a partir dali tornava-se quase impossível separá-los, difícil era imaginar como viviam antes, sem essas noites mal dormidas em que ambos se declaravam silenciosamente a cada beijo e sorriam sem parar, num misto de doçura e euforia.

- É só que…

Silêncio. Mesmo no escuro ele podia saber que ela estava mordendo o lábio inferior, é o que ela sempre fazia quando tentava procurar as palavras certas para dizer algo. E percebendo isso ele começou a ficar apreensivo – morder os lábios, ali, significava que algo importante estava prestes a ser dito e o medo de não saber como reagir ao que viria o tomou em forma de fortes palpitações no peito e de uma tontura inexplicável. A ansiedade era tamanha que ele até mesmo pensou em atropelar as palavras dela, caso isso fosse tirar a tensão que ambos sentiam. Só que mais uma vez a curiosidade era maior, e assim ele tentou coagi-la a falar de uma vez por todas.

- Que…?

- Calma, eu estou tentando tomar coragem! – e estava mesmo. Ela bem sabia que em todos os relacionamentos amorosos existe aquele momento crucial em que se define se os dois envolvidos estão se jogando da ponte com a mesma intensidade ou se alguém, num momento de covardia, resolveu largar a mão do companheiro para deixá-lo cair sozinho na correnteza. Este último provavelmente destinado a uma morte dolorosa que somente os afogados e desiludidos pelo amor conhecem.

Foi aí então que ela mediu todas suas chances de receber uma clássica resposta educada ao invés da verdadeiramente desejada. Mas chegando àquele ponto praticamente não havia retorno. Sabia que só a restavam dois caminhos: ou inventar uma mentira ridícula para tentá-lo convencer de que não era nada importante mesmo ou dizer toda a verdade que há dias ela engolia pateticamente de volta à garganta toda vez que tentava sair desavisada.

Os riscos que a gente corre numa relação ela já conhecia muito bem, mas o medo deles se tornarem realidade ainda era algo novo, pois olhando para ele assim era como se ele tivesse tudo sob controle e a ela faltasse todo o controle do mundo. É que do desconhecido o medo é sempre maior, e esse sentimento de fragilidade definitivamente era algo inédito, só o que ela pedia era a proteção das palavras certas. E aos poucos a coragem foi juntando-se ao medo e à timidez; num passo lento as palavras ensaiadas foram saindo, ainda que meio sem jeito e sem ritmo, ainda que esperando vaias ao invés de aplausos. Tremidas.

- É que… Oras, eu nem sei se deveria dizer isso agora. Não sei, talvez seja muito cedo para eu sentir o que acho que sinto, mas é que…

- Eu sei o que você quer dizer – o desespero estava claro nos gestos desajeitados que ela jogava para todos os lados e já não era preciso ir muito mais além para que ele soubesse o que ela iria dizer a seguir. Neste momento a sua feição mudou, ela estava sinceramente surpresa.

- Sabe? Mesmo?

- Sei, pois sinto o mesmo – e aquele sorriso, aquele que ela sabia ser o mais verdadeiro sorriso já moldado em todos bilhões de anos de existência da Terra.

Um sentimento assim, tão único e intenso, não necessita de sujeito, verbo nem de objeto direto para ser declarado. Tanto ela quanto ele descobriram isso naquela noite em que nenhum dos dois dormiu – apenas sonharam um sonho vívido, que confundia-se com a realidade e se tornava a própria.

3 Responses to “Sujeitos, verbos e objetos diretos.”

  1. k. Says:

    Clap, clap. Adorei a analogia da ponte.É bem assim que a gente se sente mesmo, você conseguiu colocar as emoções tão bem que eu sinto a agúnstia dela daqui.

    alias, isso é uma história baseada em fatos reais? ;p

  2. Biggles Says:

    Owwwwn, que bonitinho :] Lindo texto :]

  3. Bruno Vasco Says:

    aha! Eu não sabia que era vc!
    Amei! Eu não sabia que vc escrevia tanto!
    Beijos!


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