- Alô?
Maio 26, 2008
A minha sala sempre foi assim, confusa como você a conheceu. Com estantes alcançando o teto recheadas daqueles livros que compramos juntos nos sebos do centro, com minhas tintas espalhadas por tudo que é superfície lisa e com as paredes levemente coloridas, espirradas por fragmentos de minhas obras baratas.
- Alô…?
- Há tempos que penso em te ligar. Estou aqui, mais uma vez. O que posso te dizer? Ah, nem sei como me explicar. Esses anos não valeram à pena. Passei por muito enquanto estive distante de você, coisas nas quais ninguém acreditaria. Por muito tempo me dissimulei, fui outra, me comportei de maneira estranha. Fiquei irreconhecível diante do meu próprio espelho.
Foi assim que você começou, como se não se importasse se eu estaria realmente do outro lado da linha, ouvindo ou não. O mais importante naquele momento era simplesmente dizer o que a incomodava, o que sentia. Eu sabia que, como sempre, não passava de um ouvinte – mudo. Por uns segundos você parou, não sei se estava apenas pensando no que diria a seguir ou se esperando uma resposta que eu não poderia dar.
Respirei mais forte, tirei de mim aquele oxigênio enterrado e armazenado, esperando por um momento desses. Estou aqui, pode continuar. Mas você não continuou.
Pela janela eu via vários prédios e arranha céus cortando as estrelas. Me estiquei no sofá já imaginando tudo o que você iria dizer, mas sem ousar acreditar nem me iludir com nenhuma de minhas apostas. Com você tudo sempre foi assim, inesperado – por que mudaria agora que estávamos separados por sei-lá-quantos-quilômetros e há sei-lá-quanto-tempo? Tenho certeza que apesar de tudo essas cifras não importam. Pela linha telefônica ouço apenas um risco, presumo que você tenha começado a fumar agora. Segundos depois, num tom de confessionário, suas palavras caem em mim como uma enxurrada. Não estava preparado e, honestamente, acho que nunca estaria,
- Na noite em que te deixei, todos compartimentos do meu coração tornaram-se vácuos e meu sangue ficou confuso, tentou até mudar de fluxo para te seguir. Chorei por horas seguidas lágrimas de tristeza e liberdade. Sei também que fui covarde por ter fugido daquele jeito, olhando para trás agora vejo que deveria ter encarado tudo de frente. Sei também que fui contraditória, mas às vezes a gente é assim, faz e fala essas coisas sem sentido. É, acho que não deveria ser permitido a ninguém dizer adeus logo depois de ter dito eu te amo. Lembra quando você brincava comigo e eu brincava com você cantando aquela música? Como era mesmo? “You are a contradiction”… É, era assim – algo assim. Já nem me lembro mais. Faz tanto tempo, não é? Ah, mas eu não vim aqui pra te bagunçar mais do que já baguncei antes. Só queria saber como você está, se anda pensando em mim. Não, não isso. Nossa, quanta presunção! O que eu quero dizer é só que tenho pensado muito em você, de verdade. E ontem à noite fui te visitar, mas não consegui apertar a companhia do teu apartamento. Admito que fiquei assustada pra burro quando li logo embaixo do antigo nome “Atelier Monteiro”, o nome de uma tal de “Vanessa Monteiro”. Por um momento até tentei ser otimista. Engraçado isso, né? Eu tentando ser otimista, acho que só em um momento desses, mesmo. Enfim, imaginei que você tivesse descoberto uma irmã perdida, uma prima, qualquer coisa. Mas não é nada disso, não é? Parece que você passou mesmo seu sobrenome à outra. Quem diria isso há cinco anos atrás? Quem diria que seu sobrenome não seria meu e vice-versa? Uns dez cigarros e cinco promessas de parar com esse vício maldito depois uma mulher apareceu na esquina andando a passos decididos, balançando uma tela em branco na mão esquerda e cantarolando algo que eu poderia jurar ser aquela música dramática do Bob Dylan que você tanto odiava. Ela passou por mim com um sorriso enorme – assustador – e me deu boa noite sem tropeçar nem precisar diminuir a velocidade de seus saltos. Eu soube quem era porque o porteiro a entregou sua correspondência. E que dentes perfeitos! Aposto dez reais, que é o que tenho no bolso agora, que ela nunca usou aparelho! Sua mãe deve adorá-la, não é? Parece ser perfeita mesmo. Mas ela estava cantarolando daquela música do Bob Dylan que você tanto odiava, qual era mesmo? Me ajude, você sabe que minha memória é péssima. Só lembro de coisas que tem a ver com literatura, essa droga de memória seletiva ao menos me serve para alguma coisa. Mas a olhando daquele jeito eu posso dizer com certeza que ela é daquelas que diz eu te amo logo depois da primeira transa, só pra tentar dar sentimento a um ato completamente carnal na tentativa de esconder uma atitude impensada. Do tipo que jura amor eterno e filhos perfeitos depois do primeiro mês e, no terceiro, já afirma não conseguir viver sem você. Lembra como ríamos juntos desses tipinhos? Tá, você pode ter mudado pra caramba; mas duvido que tenha começado a amar a hipocrisia. Me diz, ela já se auto-denominou “linda e inteligente” como se isso fosse um milagre da natureza? Sinceramente, de verdade: ela acha que os outros a invejam e solta frases como “ela queria era mesmo ser eu”? Ai, como eu tenho asco dessas pessoinhas. Por favor, não me diga que agora você vive com um topoi ambulante. Por favor, me diga que você não se casou com uma dessas pessoas das quais nós fazíamos piadas. Assim você me faz pensar que cheguei tarde demais, me faz pensar que te perdi pra alguém generalizado. Se foi isso mesmo, não conseguirei me perdoar por ter te deixado se transformar numa folha em branco, por ter te deixado nos braços de um sorrisinho bonito que acha que entende de filosofia só porque já leu alguma coisa do Jostein Gaarder.
Um sonzinho agudo corta suas palavras.
- Merda, falei demais. Só me restam três unidades. Rê, você ama a mulher perfeita? Eu posso sumir se quiser, você sabe. Então, devo sumir?
Taí uma coisa em você que eu nunca vou entender nem deixar de gostar, como alguém pode ser tão pragmática? Mas não tente reduzir tudo o que sinto e senti por toda minha vida numa simples pergunta.
E, eu, idiota, perdi tempo demais pensando no que te dizer. Não sei se você se cansou de esperar ou se seus créditos simplesmente acabaram – é um mistério pra toda a gente saber quanto tempo cabe numa unidade telefônica. Eu sei que em três não cabe o suficiente É esquisita por demais essa sensação de correr pro telefone toda vez que ele toca na esperança que seja você mais uma vez. Esquisita mais ainda é essa sensação de andar pelas ruas fechando e abrindo os olhos a cada esquina torcendo para seu rosto se materializar em frente ao meu. Fico pensando se você simplesmente desistiu e por isso nunca mais ligou, se achou que o silêncio de três unidades foi minha maneira de te mandar embora. Em todas noites ainda penso naquela pergunta, todas manhas pondero sobre a resposta. Mas nenhuma é boa ou ao menos aceitável. Preciso continuar a elaborá-la dia e noite, espero pelo dia em que você vai finalmente recuperar aquela coragem e me aparecer à porta com um adesivo anti-nicotina grudado no braço direito. Quero ouvir suas estórias, ver suas fotografias, ler seu novo manuscrito e fazê-la enrubescer com meus comentários elogiosos.
O som do telefone desligando pode ter me assustado, mas você sempre foi assim mesmo, inconsistente. E sem sequer esperar pela minha resposta simplesmente sumiu, desvairou pelo mundo. Ainda assim fico com aquela sensação de que não foi esse nosso último Adeus.
Maio 26, 2008 at 5:27 am
Caraio, que FODA.
tudo bem que tem um paragrafo ai digno de Saramago, mas que phoda.
“sabes aquelas coisas que saem?” como você disse, pelo jeito saiu MUITA coisa.
“Por favor, não me diga que agora você vive com um topoi ambulante. Por favor, me diga que você não se casou com uma dessas pessoas das quais nós fazíamos piadas. Assim você me faz pensar que cheguei tarde demais, me faz pensar que te perdi pra alguém generalizado. ”
E esse paragrafo comprovou “o quê” que tava preso ai. :F
Maio 26, 2008 at 7:20 pm
Sabe sonhos?
Existem códigos, eu tenho os meus, de conduta…
“nunca olhe para o lado posto dele, senão ele some”
“nunca coma a comida, senão você acorda”
Acho que algumas pessoas são feitas de matéria de sonho…um passo em falso e…
desaparecem.
Maio 29, 2008 at 11:54 am
maravilhoso.
nada mais pra comentar num post, entre no msn quando puder.