Um mais um.
Maio 11, 2008
Faz frio lá fora, faz frio aqui dentro. Não tenho a menor intenção que seja de levantar-me. Faço bem ficando aqui, imóvel e invisível. Este é mais um domingo de menos uma semana e eu vou atravessando meus dias aos poucos, nenhuma pressa de viver. Encontro-me num dia sem obrigações.
Ouço um barulho, abro os olhos e vejo. Gotas pesadas e sonoras se jogam de uma nuvem alta em um ato suicida; batem forte na minha janela e morrem, seus pedaços espalham-se pela vidraça e tornam fosca a paisagem de prédios cinzas que dominam toda cidade. Essa visão manchada me faz sentir ainda mais solitária. Sinto-me pequena e encolhida na minha unidade habitacional, uma entre milhares, milhões. Uma cidade grande demais para uma alma solitária, uma cama grande demais para meu corpo desprotegido.
Preciso tomar uma atitude e então pondero sobre minhas expectativas. Mas hoje não fará sol, não tem teatro nem algum bom filme passando em alguma boa tela de cinema. Hoje não tem ninguém para mim e minhas próximas dezoito horas estão fadadas ao tédio, as opções variam entre ouvir jazz ou blues; ler prosa ou poesia; beber café ou vinho. Reflito um pouco sobreo assunto, desisto. Limito-me a puxar mais um pouco do cobertor encardido – como quem sente cócegas, apenas mexo os dedos dos pés. Sinto-me gelada e me dou um abraço solitário, as cobertas não me são suficientes.
Não sei que idéia foi essa de mudar de cidade, precisava de “novos ares”. Talvez devesse ter tentado apenas acampar durante uma semana. Se assim tivesse feito, ao menos eu teria alguém a quem ir visitar agora. Nada de estar num aquário exagerado, sufocando numa água cheia de lodo e vazia de oxigênio. Quantas idéias absurdas e decisões erradas. Elas são eu e eu que as produzi.
Pela primeira vez na vida meus melhores amigos são aqueles que vejo por cima de divisões quadradas e retangulares, através de corredores extensos quase sem fim. Eles estão divididos por setores e cubículos minúsculos, nossas relações mais profundas encontram-se ao redor de uma garrafa térmica. “Açúcar ou adoçante?” – conhecemos as preferências uns dos outros.
Sem nem mais nem menos um movimento ao lado rasga minhas divagações. Com certo constrangimento sinto um leve toque na minha coxa, sua mão me percorre e enlaça-me. Percebo; não estou só, eis aqui meu alívio. Não mais jazz nem blues, esta cama é a medida mais certa de nós dois. Faz frio lá fora, mas há calor aqui dentro.
Maio 12, 2008 at 12:32 am
Ma..opa, Brenda, texto muito bonito. E todos nós somos os mesmos, pura solidão, não adianta crer na inexistência dela. Fomos feito em um só corpo, um universo próprio e por mais que tenhamos contato com os universos ao nosso redor sempre iremos nos perder na imensidão de nós mesmos.
ok, viajei.
:*
Maio 12, 2008 at 1:28 am
Tão bom quanto um texto ‘Domingo’ pode ser. Há um certo frio deprimente emanando das palavras, mas ao mesmo tempo, reconfortante.
P.S: Há mais coisas entre o meu cubículo e os que me cercam do que suspeita nossa vã filosofia.
Maio 15, 2008 at 7:23 pm
acho que o seu texto que eu mais gostei foi esse :]
adorei as gotas suicidas.
adorei os cubículos.
e domingos, bem, domingos sempre são meio feios e tristes, tenho dito :T
Maio 20, 2008 at 4:52 pm
A coisa mais linda que eu li nos ultimos tempos!
Valeu!